< >

30 outubro, 2005

Tentar explicar uma necessidade




Agora vou tentar explicar uma necessidade. Agarro em adjectivos e componho o texto do amor mais ou menos ao sabor do que sinto na boca. Depois lá me contenho na entrelinha em que estou igualzinha a todo o amor que leio. É muito mais fácil falar pela boca do poeta, alguêm já o reconhece e se o releu decerto é mais simples reconhecer ali o amor. Só que a minha necessidade tem um valor que é distante do valor da necessidade do poeta, exactamente como as nossas rugas quase iguais pelas nossas duas faces.
E não explico.
E nem falo mais dela.
Sei que posso explicar a minha necessidade em silêncio, porque quase tudo aponta para ali. E embora não possam ler em mim o que eu escrevo em cada momento, quando se trata de uma necessidade acredito que é como se escorresse por nós como uma seiva ou um suor, como uma fruta a escorrer sumo.
Necessidade nunca é o que se sente nos intervalos dos episódios da vida, quando se pára para pensar. É urgente e por isso é estranho.
Não é razoável.

(foto-Jean Harlow)

27 outubro, 2005

Pose



Não estava com vontade de imagens guardadas pelas cores, pelos corpos...
E saltaram-me papagaios das pastas que abri, imensos faróis iluminaram-me a ideia.
Parei nesta pose porque aqui não consigo deixar de ver como a foto é um momento que se pára no tempo. Muitas vezes um momento em que nem lembramos o gesto. Como a meio duma volta, um movimento, um passo de dança.
(foto-Colin Firth e Rachel Blanchard)

19 outubro, 2005

Ao primeiro olhar



Deve ser algo muito natural. A guerreira pega nas armas ou nas palavras e acaba a ferir, secalhar a matar.
Tão natural como essa tua comparação do que vês pela primeira vez, com as pessoas que conheçes.
O pior é que nem sei se a guerreira lamenta quando fere. E agora tu pensas "bem me parecia que era prazer que ela sentia quando se projectava toda inteira de ódio para mim", mas não. Eu sei que não me dá prazer, apenas te comunico que as diferenças que temos por vezes me fazem sentir só.
É na altura, nada mais que na altura. Não pretendo que mudes uma virgula do teu texto. Escreve por favor sempre as tuas exclamações como o tens feito até agora. Escreve que a vizinha é parecida com a Ash, escreve na voz, que eu oiço e não carrego as armas.
Aquele meu olhar, o que olha á primeira vista tão profundamente, olha-te logo como se não conheçesse a figura. Eu sei que só podes perguntar-me "o que raio é que isso te importa?" Eu sei que queria responder que não me importa absolutamente. Por vezes acho que não importa mesmo, mas se te fere o meu comentário porque não posso eu ferir-me com o que quer que seja?
Esse teu ver ao primeiro olhar tão diferente do meu. Pode significar , porque não? Que o teu ver ao segundo e ao terceiro se afastem ainda mais dos meus.
Teoria. Porque nem sequer somos rectas paralelas.
(foto-Meg Tilly)

13 outubro, 2005

Será que consegues sentir tanto?



Concordo com o que disseram sobre o desfocado. Fiquei a olhar para a foto como se estivesse a medir a luz e pareceu-me tudo grande ali, enorme, era um quadro de movimentos parados. Podia passar a estar numa galería do Louvre e ser admirado por milhares de olhares incapazes de compreender.
Hoje vi-a através de um vidro embaciado com gotas de suor em vez de àgua, desfoquei-a eu própria, ainda mais. E penso que é daquelas coisas que quanto mais desfocadas mais bonitas são, como se o que não se visse fosse capáz de conter muitos mais contornos imaginários.
Depois li... Sem dormir... As muitas folhas que te queixas de escrever para dizer muito pouco. E acho que é mentira. A mim parecem-me trinta linhas muito cheias. Será que consegues sentir tanto?

(foto-Monica Bellucci)