23 dezembro, 2007
"A percepção não passa da soma dos nossos mal-entendidos". Já tinha escrito isto mas voltei aqui. A percepção de Sumire, a personagem de Murakami em "Sputnik meu amor" e as muitas palavras que a ligam a tudo. Há uma beleza especial em quem consegue vestir tudo de palavras, as palavras só descrevem a ideia até certo ponto, depois acabam por destruí-la, exceder pelas palavras é normalmente um erro fatal. Aqui, agora, na minha percepção, exceder pelas palavras é um erro fatal tão bonito. Estes mal entendidos que me vêm em sopros, somados, dão isto. Parecem negar o silêncio misterioso assumido e assim interpretado. Sumire barálha as palavras na mesa e escolhe-as ao acaso para construir a frase que descreva melhor aquilo que não sabe.
" -Estou cheio de vontade de te ver- Disse eu.
-E eu também estou cheia de vontade de te ver - Repetiu ela. - Dei-me conta disso quando nunca mais te pus a vista em cima. Para mim foi tão claro como se de repente todos os planetas tivessem ficado alinhados à minha frente. Preciso mesmo de ti. Fazes parte de mim e eu faço parte de ti. Sabes uma coisa? Acho que houve um sítio qualquer, não faço a menor ideia onde, em que cortei o pescoço a um animal qualquer. Com uma faca afiada e o coração de pedra. Simbolicamente, como acontecia na história dos portões da China. Estás a perceber o que te digo?
- Acho que sim.
- Então anda lá buscar-me."
"Sputnik meu amor"
21 dezembro, 2007
O que interessa é a quantidade, amar mais, amar demais, amar muito... Usamos os sentimentos à dúzia, porque à duzia é mais barato
Se sinto o mesmo que tu quando acordamos numa manhã de domingo a achar que não nos apetece salvar o planeta dos lacinhos cor-de rosa e papéis azuis, é porque estamos a conversar na mesma língua e não só é fabuloso sermos homem e mulher, como é apetecível mudar de assunto e voltar a constatar que é assim. É assim que eu sou e é assim que tu és. Porque é fácil demais perdermo-nos em ruelas de opiniões que se opõem. É fácil deixar a força sair para matar o inimigo que não acha o roxo assim tão bonito, tão mais bonito que o preto.
Há gente que é feliz a chorar, sabes como é? E há logo quem ache que essa gente é triste. É um pouco como esse fenómeno da publicidade e dos que se deixam atingir por ela. Algo é imediato, algo é tão imediato que parece nunca poder ser o oposto.
É preferivel quando nos deixamos tocar por uma razão que é só nossa. Deixamo-nos tocar, não é por isto nem por aquilo e não dizemos a ninguêm porque é.
Os sentimentos são algo a que damos importância, que vivem conosco e vivem de nós, esgotam-nos se quisermos, ou adormecem-nos. Gostamos de acreditar que são verdadeiros os das pessoas que nos rodeiam, mas não sabemos muito bem, porque não sabemos o que é ser verdadeiro. Achamos que a quantidade é que é importante, usamos o "muito" quando queremos muito, quando amamos muito, mas não sabemos nada sobre a verdade. Secalhar amar assim, muito, é uma opinião como qualquer outra. Até que venha alguem convencer-nos do contrário, como um anúncio. A verdade não é a quantidade, ou é? E se é para ti... (Eu espero que não...)
Há gente que é feliz a chorar, sabes como é? E há logo quem ache que essa gente é triste. É um pouco como esse fenómeno da publicidade e dos que se deixam atingir por ela. Algo é imediato, algo é tão imediato que parece nunca poder ser o oposto.
É preferivel quando nos deixamos tocar por uma razão que é só nossa. Deixamo-nos tocar, não é por isto nem por aquilo e não dizemos a ninguêm porque é.
Os sentimentos são algo a que damos importância, que vivem conosco e vivem de nós, esgotam-nos se quisermos, ou adormecem-nos. Gostamos de acreditar que são verdadeiros os das pessoas que nos rodeiam, mas não sabemos muito bem, porque não sabemos o que é ser verdadeiro. Achamos que a quantidade é que é importante, usamos o "muito" quando queremos muito, quando amamos muito, mas não sabemos nada sobre a verdade. Secalhar amar assim, muito, é uma opinião como qualquer outra. Até que venha alguem convencer-nos do contrário, como um anúncio. A verdade não é a quantidade, ou é? E se é para ti... (Eu espero que não...)





