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31 março, 2005

Intuitiva





Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim.
Clarice Lispector - A hora da estrela

Como D.H Lawrence com todos os defeitos da espécie humana mas com um fogo puro.
E perto, tão perto de um coração selvagem. Clarice, a escritora que pensava que os livros nasciam das àrvores, decidiu ser ela própria a arvore quando descobriu que eles eram escritos por autores.
Descrever sensações não é narrar factos. Não há como comentar ou censurar sensações.
A guerreira saboreia a afirmação da autora: "Eu não sou uma escritora sou uma sentidora, uma intuitiva".
Exactamente!
E atravessa a passagem numa felicidade clandestina, muito serenamente, quase de verdade.

30 março, 2005

Um poeta no livro

Joris Van Daele



Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n'alma - tenho a calma... E etc... É o que diz Almeida Garret no livro de capa velha que a guerreira já não quer ler.
A comichão tambem lhe devia vir da alma em vez de a ter a queimar noutro sítio. Porque a cabeça já não aguenta muito mais esta loucura.
Nenhuma calma se consegue instalar assim...

29 março, 2005

Coração ocupado

foto de GeroGroeschel


Então a bucha expansiva incomodou alguêm. Mas uma bucha é uma bucha e é de utilidade. E expansiva quer dizer que se adapta, é susceptivel de se expandir.
E se se estende? se se dilata?... Não merece uma crítica tão negativa.
É uma bucha porreira que segura as estacas sem magoar a estrutura.
Um coração flechado por Cupido já é uma coisa boa. Mesmo que sangre até desaparecer o conteudo. Mas se for uma estaca já pesa a expressão e tem que ser um mau sinal. Não concordo, francamente. Eu consigo ver poesia numa estaca como marca do amor no coração. Se lá estiver uma bucha então... Quase parece que o próprio do sentimento se materializou e acampou ali para umas férias grandes, numa tenda amarela só suja por fora.
Nada de ilha deserta.
Em vez disso um desenho de um grande coração (deserto) ocupado.

(Ela bem tenta explicar o amor... Mas é como se diz, outra cabeça um outro mundo).

25 março, 2005

O estado do coração

foto de UweSpiller


O estado do coração, que adormece no cheiro da confiânça cega que quer ter.
E o sentimento que não pode ser leve e se fixa por estacas e buchas expansivas, nele.
O título é teu, o sentimento é meu.

(a guerreira num pensamento).

24 março, 2005

A olhar o peixe

foto de Tim Flach


O peixe que eu sou segue as pratas na corrente.
É vermelho e verde e azul às vezes.
E complectamente esquecido de si.
Dança sem musica e deixa que a maré lhe explique o que não pode perceber.
O medo não existe, só o espanto
de haver objectos e mãos
e bocados de corpos e pedras
que brilham como ele.

(A guerreira a olhar o peixe no rio)

20 março, 2005

Chuva

A chuva finalmente. O céu entre o cinzento e o castanho. E um vento quente.
Dia de paz, de descansar as armas, não querer saber se estão cheias ou vazias... As armas que são palavras ou olhares ou gestos, que se carregam com construção do mal e não de matéria. Matam possibilidades.
A guerreira sente-se como uma gotinha de água no deserto. Mas pode ser momentâneo. E isso é uma visão de um oasis.

17 março, 2005

Teve

Tanto que ela vê. E tambem rói as unhas, mas isso quase que não se nota.
Teve uma noite bonita com... (não sabe como é que ele gostaría de ser chamado, vai perguntar-lhe amanhã)...
Mas voltando à noite bonita, foi um bonito abrigo do dia. E depois há mansões que cabem numa cabaninha. E num saltinho esteve em Cuba e regressou para partir logo num foguetão ao espaço. Bebeu café numa cozinha perfeita, em pé, de frente para um pôr do sol, o que fez com que o dia afinal resultasse em bem.
É, parece que ela vai ter que agradecer ao mágico... Nem que seja por umas certas bolachas com marmelada.

15 março, 2005

sente

A guerreira sente que os carros estão mais apressados e acredita que já é tarde. Sente saudade dos arcos. Vai pensando que não pode agarrar-se aos tensores e balançar-se ao vento como gostaría. vai caminhando. E descobrindo que afinal só é tarde dentro dela. Os ruídos dos carros interferem com os pensamentos, transformam-se no sinal amarelo da estrada para a loucura. E a guerreira deixa que os sonhos se afastem devagar. São 8 minutos de trajecto. Calçam-se as rodas, tiram-se os ténis e muda-se de uma cidade para outra, só é pena que não dure meia hora o trajecto a passos. A guerreira aceita as regras mas não acredita que elas façam as pessoas melhores. Com pressa tambem, deixa mais um dia para trás e concentra-se nos passos que ainda faltam. Os passos das rodas sobre o rio.

sabe

A guerreira sabe que no amor as contas não dão certo. Nem as torradas da manhã, nem o café quente na mesa, nem a flor vermelha que aquece o dia... Nada dá conta certa.
No amor os numeros não são matemática. Ficam ali arrumados. O que ela fez o que fizeram por ela, numeros que não emparelham.
Se o amor fosse uma ponte, resolvia-se apenas a questão da conexão. Depois olhava-se à volta estudava-se a zona e moldava-se a matéria.
O amor não é uma ponte. Infelizmente. Os numeros não ficam no papel. E na divisão, sobram e estorvam. E só por acaso a estabilidade dura tanto como a fé na estabilidade.

14 março, 2005

A guerreira

A guerreira é vital. Expressa-se talvez menos elegantemente e com menos simplicidade do que gostaría, mas propõe-se a restaurar a sua rota original em intervalos muito curtos de tempo. Quando as duas margens do rio não são paralelas é necessário curvar a plataforma para alcançar as duas beiras com uniformidade.
A guerreira assegura a inclinação e descreve a curvatura.