26 fevereiro, 2008
«Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada para os gozos da vida; a liberdade e o amor; tentar da glória a etérea e altívola escalada,na eterna aspiração de um sonho superior...
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada para poder, com ela, o infinito transpor; sentir a vida triste, insípida, isolada, buscar um companheiro e encontrar um senhor...
Ser mulher, calcular todo o infinito curto para a larga expansão do desejado surto, no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...
Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza! ficar na vida qual uma águia inerte,
presa nos pesados grilhões dos preceitos sociais!»
Gilka Machado
Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.
Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detem-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.
Elas, porém,
não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...
Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas raras;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...
(in Sublimação, 1928) Gilka Machado
25 fevereiro, 2008
Até à rouquidão
Sim, o cor de rosa era um draft. Não fazia sentido se tivesse sido de outra maneira, porque raio diría "nem escrevo" se fosse escrever (escrever é colocá-lo para ser lido) uns minutos depois?
Deste modo, o cor de rosa foi o momento entre a última vez que falámos e a penúltima que escreveste. Esta coisa vê-se assim. Começamos a explicar tudo muito bem e a descrever e a escrever e isto é o oposto do "não quero saber disso para nada". Explicar ou usar muito texto é dedicar, nunca te disseram? E falar e gritar tambem pode ser. Alguns doentes mentais muito mentais usam tudo para complicar, o simples já não é simples e a complexidade transcende qualquer um.
Lembro-me duma referência num livro da Rita Ferro (imperdoavel, agora com a net não ir esclarecer qual o livro e colocar fielmente a passagem, mas não tive vontade, por isso segue como me está na cabeça) dizia eu que algures num livro uma personagem fala das mentiras de um homem com quem teve um caso no passado e foi enganada, fazendo referência ao seu sorriso, à sua calma, à sua capacidade de persuasão. Essa personagem, agora vive um caso com outro homem e não pode, por causa do passado, ignorar nem as caracteristicas que lhe ficaram da experiência que teve com homens, a capacidade de plantar ideias tão bem no cerebro feminino, nem o facto de que ao estar agora com este significa que este é melhor que o outro e por isso provavelmente só mente muito melhor. Repara, mesmo que seja só provavelmente, mesmo que até a maior parte das vezes ela não pense nisso e ele seja um anjo, a verdade é que somos o que somos e agimos porque mentalmente complicamos ou simplificamos as coisas.
Gostava mais de ter um passado de mentiras em que acreditei como o dela, em vez de um passado...
E se isso não te explica porque é que teimosamente te acuso de coisas que dizes que não és. Pelo menos a mim explica-me que vim de um lugar e que tenho as minhas caracteristicas e as minhas fitas esvoaçantes ou os meus diagnósticos de doente mental, permanentemente em frente à cara.
E já agora faço o meu e o teu (diagnóstico). E ao estar perfeitamente no controlo da situação, não me perco, nem me afundo. É só pela minha sobrevivência. Com os muros que ergues posso bem.
Eu só os ergo a quem não quero que chegue a mim, não será isto a chave que fecha a porta sem lamentações? Quer dizer, o facto de nunca os ter erguido a ti?
Orgulhoso, burguês, troglodita... e enfim... tudo muito explicadinho... Até à rouquidão.
Sim, quis pedir-te desculpa ao Ego, naquela noite. Mas vinte minutos depois já era tarde demais para ti.
E tudo só por causa dos não fumadores.
23 fevereiro, 2008
Resposta
Eii. Não sou perfeita. Tenho coisas boas, más e assim-assim.
O ódio selvagem e inconsciente provavelmente até nem terá esse nome.
Tenho raiva tambem. Igual à tua, maior ou menor, pouco importa, mas numa fase diferente do processo. Digamos que meto a raiva em assuntos mínimos, menores e de minorias e tu não és dos que vêem estas merdas pequeninas. Na outra fase do processo, onde tu a metes (porque eu já meti a minha) tens todas as razões e mais alguma porque o Ego não se deixa derrotar assim. Adoro o teu Ego e adoro a minha raiva.
Adoro os demónios que cada um de nós dominando ou não, culpa.
Eu sou tão rápida a sentir como a respirar.
E tu respiras com a calma vigilante e não perdoas com a calma vigilante.
Adoro a minha febre porque deliro nela sem que ela me derreta os dias ou as noites.
Adoro a tua, porque te consome sem que consigas delirar com ela.
E detesto ter que ser perfeita.
E detesto que não tenhas que ser perfeito.
Mas isso não faz a menor diferênça num cenário catastrófico.
Continuo a gostar muito de dizer que o que se quer perfeito, não és tu nem eu, mas o que nos une.
E para isso é preciso uma imaginação do c*** . Deve ser isso que eu tenho, uma das bem grandes... e à parte do gosto das culpas que me fazes ter (alguma violência de infância - que te parece uma boa razão).
Não devia escrever. Não sinto mais nada porque escrevo e nada no que escrevo. O amor ou seja que entrega for não vale mais que os últimos dias da estação que desperdiçámos. Sinto-me bem nas lágrimas. Tudo o que pode haver de mais profundo e doce existe nas lágrimas. Dou-me como se voltasse à ingenuidade de uma idade sem idade. Treze, quinze... O tempo em que uma mulher se dá sem mágoa. A vida tem destas coisas. De facto a vida são só estas coisas. Despeço-me de ti como se pudesse voltar um dia e o meu passado magoado esclarece-me a noção do que é voltar um dia, do que foi voltar um dia. Acredito que qualquer vida sem isto não valha a pena. Tive treze, tive quinze e tive tanta febre de amar como de viver. O tempo esgota-nos as capacidades. Se formos mesmo fortes não somos capazes de acreditar. O meu controlo pássa por ter tudo muito bem definido dentro de mim, muito bem percebido, a minha entrega pássa por querer explica-lo muito bem a outro. O meu amor é a luta que ponho nas palavras e a minha paixão é o grito que dou enquanto luto. Nada dentro de mim é uma paisagem que se observa e se aprecia. Tudo o que fáz diferênça tem uma lança apontada e vivo porque é assim. Em verdade não gostava de ser diferente. Os tempos das mulheres têm qualquer coisa de fantástico e talvez seja bom tudo se resumir ao querer ser mais amada e conseguir acreditar que depois vem algo melhor ou maior. Perdi a conta às vezes em que fechei a porta com um estrondo que me ficou no cerebro por dias, a parecer que não ía passar porque não podia passar. E era só desespero. Fecho a porta devagar agora. E isto é sair dos treze. Resumo-me ao meu texto que é fácil de escrever. Ele pinga. O que eu sou cai em forma de palavra. E tem um som. E pode ter uma moral e muitas razões. Mas não é de facto preciso. Não sinto mais nada porque escrevo e nada no que escrevo.
Não devia escrever.
Nem vou!
Não devia escrever.
Nem vou!
(22-02-2008)





